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Ser hospedeira de bordo no Dubai

Ser hospedeira de bordo no Dubai

Crónica publicada no P3 – Público

“É ao som de uma melodia arabesca que escrevo, vinda diretamente da radiofonia do rapazito da receção” – escrevi há exatamente um ano quando cheguei ao Dubai. Hoje, oiço o mesmo tipo de melodia, fruto do fenómeno aculturação. Gosto de deambular o ouvido pelas pautas do deserto.

Lembro-me de me sentar na minha nova cama e perguntar: “mas que raio estou eu aqui a fazer..?”. Mais tarde descobri que todos os meus colegas fizeram a mesma pergunta quando aterraram no novo quarto, espaçoso de mais para uma alma emigrante, frágil e ainda tão amedrontada.

As respostas são muitas: porque em Portugal não há condições para começar uma “vida”, porque o próprio primeiro-ministro aconselha os jovens a emigrar. Creio que a “desculpa” maior é o desafio imposto de desenraizar de casa, criar raízes noutro canto do mundo e enriquecer por dentro. Cresce-se, aprende-se. Desafiamos limites, ultrapassamos barreiras pessoais.

A palavra saudade dilacera-nos. Aprendemos a coexistir com ela como um booster de energia – condensamos os quilómetros de Portugal Continental no coração. Vamos lá buscar algumas lembranças de momentos e de nós mesmos quando a nossa identidade se difunde num dia-a-dia diferente do que nos era habitual. As lágrimas rolam pela face quando gestos ou expressões de outrem nos lembram as nossas origens hereditárias, as nossas amizades mais belas. Mas está tudo bem! “A gente desenrasca-se!”. No final, não há português mais feliz que aquele que de estômago saudosista aspira todos os pitéus da mamã. A casa é o melhor lugar do mundo e enquanto nos moldamos nos meandros do crescimento, ela não muda. Mantém-se para nos receber com o mesmo cheiro e tudo no mesmo lugar, tal e qual como a deixámos.

Aqui os homens vestem-se de branco e as mulheres de preto. Eles têm um lenço na cabeça, elas deixam apenas os olhos a descoberto. E no meio disto tudo um sem número de etnias veste-se em concordância com o humor matinal da sua própria cultura.

Aviões descolam e aterram. Há sempre luzes no céu. A toda a hora chegamos, partimos ou deambulamos em dias de folga. Nem sempre em concordância com os outros que nos preenchem a vida aqui, o que nos torna saudavelmente viciados nas novas tecnologias. Whatsapps, skypes, tornaram-se ferramentas essenciais na nossa vida social e emocional pelo conforto de saber que à distância de um clique podemos viajar em fusos horários e comunicar a quilómetros de distância. Isso traz-nos o conforto da proximidade e de pertença, preenche-nos a alma numa profissão que por vezes pode ser muito solitária, não só pelo facto de estarmos longe de casa mas porque trabalhamos com pessoas diferentes todos os dias, onde o tempo, na maior parte das vezes, não dá para transformar um colega num amigo; e a fase de introdução e das primeiras impressões é inerente a cada voo.

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Foto: Maria Bonifácio Lopes

Quase nunca sei quando é segunda-feira ou fim-de-semana. As minhas horas laborais já não são distribuídas uniformemente pelos dias da semana, o que aboliu qualquer tipo de rotina da minha vida. Os meus meses são apenas geridos pelo número de horas que estou no ar e os dias que estou em terra. Não me importo. Nunca fui muito compatível com esse tipo de rotina laboral, de modos que me sinto bem à deriva pelos dias da semana, perdida em fusos horários, por vezes “bêbeda” em “jetlag”.

Somos cada vez mais portugueses. Já há dois restaurantes com iguarias lusas e um café para desfrutar os prazeres da doçaria portuguesa, inclusive o nosso amado pastel de nata. Creio que já faltou mais para o surgimento do fenómeno “bailarico” no Médio Oriente.

Maria Bonifácio Lopes

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